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'A Freguesia' foi das coisas mais bonitas que fizemos no Teatro do Eléctrico

2019-05-28

Fundador do Teatro do Eléctrico, é nas recordações de infância vivida em Quarteira, nas tradições e nas gentes que habitam a sua terra-natal que Ricardo Neves-Neves se inspira enquanto encenador e dramaturgo. Ver os seus espetáculos nos palcos algarvios não surpreende por isso quem segue a carreira do ator que, em menino, julgava tão difícil ser astronauta como pisar um palco.


Boletim de Quarteira (BQ)- ‘A Freguesia’ e ‘Soberana’ são duas produções que lhe permitiram trabalhar sobre vivências que conhece de perto, que fazem parte das suas origens. Foi um exercício fácil enquanto encenador?
Ricardo Neves-Neves (RNN) - Quanto mais próximos estamos de uma realidade ou de um tema, maior a informação que dispomos. As possibilidades são tantas que se torna mais difícil optar por aquilo que entra ou sai do texto, a música, as imagens que escolhemos... O trabalho de ‘A Freguesia’ foi das coisas mais bonitas que fizemos no Teatro do Eléctrico. A longa investigação, as entrevistas e a partilha destas estórias com a equipa de trabalho em Lisboa foi realmente emocionante. Também fiquei a conhecer novas estórias sobre Quarteira e, sobretudo, muitas dezenas de pessoas com estórias inacreditáveis, um passado incrível, experiências de verdadeiros heróis e isso é material precioso para qualquer dramaturgia e qualquer espetáculo. As pessoas abriram-se connosco, contaram-nos os seus pensamentos, o seu passado, as suas expectativas, segredos, medos, alegrias. Foi um estudo e uma partilha que nos deixou a todos boquiabertos. Às vezes investigo textos para levar a cena, vou de propósito ao ‘supermercado’ (que é o que chamo a Londres, Paris ou Berlim) comprar peças acabadas de publicar, a dita novíssima dramaturgia, e às tantas percebo que o senhor sentado ao meu lado num banco da Praça do Mar nos pode fornecer um material dramatúrgico riquíssimo.

BQ- Quanto ‘Soberana’…?
RNN- Estamos desde março de 2018 a trabalhar sobre a Mãe Soberana e também a conhecer novas estórias e vivências emocionais e espirituais a partir desta tradição que, na nossa opinião tem vertentes religiosas, pagãs e históricas. Estamos mais uma vez com material valioso em mãos.

BQ- Tem em perspectiva outros projetos no Algarve?
RNN –Gostava que tivéssemos, sempre que possível e nos faça sentido, a temática ‘Algarve’ nos espetáculos. Aliás, acho que o Algarve está sempre presente nas peças que escrevo e nos espetáculos que enceno. A forma de vida, a relação com o tempo e o espaço, as experiências com a terra e o mar, as tradições e o repertório musical, fazem parte de mim e, consequentemente, dos trabalhos que desenvolvo. As personagens que crio são, aqui e ali, pessoas que conheço. Na minha primeira encenação em 2008 (‘O Regresso de Natasha’) havia um corridinho algarvio. Em ‘Mary Poppins, a mulher que salvou o mundo’, que estreou em Barcelona em 2012, há cenas sobre a minha infância na Ponte do Barão e no laranjal. Mas gostava que o trabalho no Algarve fizesse parte do meu quotidiano e do da equipa com quem trabalho. Gostava de mostrar cá todos os trabalhos que desenvolvemos, de incluir as pessoas de cá no nosso dia-a-dia, de oferecer formação na área do teatro, enfim, de fazermos parte da região. Não me faz sentido estar apenas em Lisboa. Reconheço a importância de estar num centro urbano maior, mas sinto a falta de uma ligação permanente e intensa com o Algarve. Por esta razão temos desenvolvido uma estreita parceria com o Cineteatro Louletano, onde apresentamos os nossos espetáculos. Em março voltamos com o ‘Banda Sonora’, um espetáculo que me é muito caro, feito com grande esforço, em tempo recorde, com uma equipa tão talentosa. E, claro, há nele um bocadinho do Algarve, numa das cenas em que se fala de uma amendoeira em flor.

BQ- É um dos encenadores portugueses contemporâneos mais conceituados. Viver em Lisboa faz realmente a diferença para quem pretende abraçar uma carreira no mundo da arte?
RNN –Lisboa concentra uma grande oferta de possibilidades: tem várias escolas para formação artística, numa só semana consigo ver vários espetáculos diferentes de teatro, dança, música, ópera, etc (ser espetador é das coisas mais importantes para um artista, parece-me). Lisboa tem uma grande concentração de artistas com quem posso falar e trocar ideias, muitas livrarias, exposições. Ainda assim não sei se será absolutamente fulcral para um artista ter de se mudar para Lisboa para poder trabalhar. Há projetos de várias áreas artísticas espalhados pelo País, com frutos importantes e de referência, com um impacto local, regional e nacional fortíssimo, que se calhar em Lisboa se diluiriam na quantidade de propostas. Fico também com a sensação que o paradigma está a mudar, ainda que lentamente. Aquela frase “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” não me parece que se aplique.

BQ- Que idade tinha quando decidiu seguir esta carreira?
RNN - Por volta dos 14 anos percebi que ser actor era uma possibilidade real. Antes já tinha colocado a hipótese, mas parecia-me tão distante como ser um astronauta da NASA ou presidente dos Estados Unidos da América. Quando percebi que podia acontecer, pedi à Isa de Brito para me apresentar ao António Alvarinho e ao José Matos Maia, que dirigiam o Grupo de Teatro Amador de Quarteira (GTAQ), porque queria participar nos seus espetáculos. Foi com o GTAQ que tive as primeiras experiências como ator e mais tarde como encenador. Aos 16 anos ia aos fins-de-semana para Lisboa, para fazer formações de teatro e aos 18 concorri à Escola Superior de Teatro e Cinema (antigo Conservatório Nacional), onde me formei. E curiosamente onde vim a ser professor. Trabalhei dez anos como ator. Mas fui em simultâneo trabalhando, de uma forma muito despreocupada e descomprometida, como dramaturgo e encenador. Hoje são as atividades que mais me ocupam e tenho tido dificuldade em aceitar trabalhos como ator, mas já estou cheio de saudades.

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